Crescimento Econômico versus Ausência de Compromissos Humanitários: 
O Caso da Lei de Esterilização no Japão
 

Palavras chaves - Pessoas com deficiência, pós crescimento, decrescimento, bem estar social, economia.

Um país é considerado avançado e desenvolvido a partir das métricas do crescimento econômico, mensurado Produto Interno Bruto (PIB), cálculo do que é produzido pelo país, e, por sua vez, usado como indicador de geração de riqueza das nações. 

Segundo o último levantamento 2020, os países com maior PIB, portanto, os mais ricos são: 1° Estados Unidos, 2° China, 3° Japão, 4° Alemanha, 5° Reino Unido, 6° Índia, 7° França, 8° Itália, 9° Canadá, 10º Coréia do Sul. 

No entanto, o modelo econômico hegemônico, pautado pelo crescimento econômico como medida de riqueza, e tendo o PIB como métrica, não é capaz de medir o desenvolvimento humano, tampouco os impactos negativos que esse modelo gera ao meio-ambiente.

É preciso mudar o paradigma atual, que foca  apenas na geração de riquezas. É  necessário colocar o ser humano no centro.  

O crescimento econômico, parece não está sintonizado com problemas ambientais, é como se falássemos de um outro planeta terra, quando mencionamos as crises globais e o bem estar humano. Por mais que o PIB tem compromisso com a ODS - Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, que são as 17 metas que os países têm para atingir até 2030, ainda assim podemos acompanhar que o PIB usa o termo de “economia verde”, como se esta alternativa justificasse o crescimento desenfreado da economia. Mas só essa prática, não reverte os contratempos que enfrentamos da falta de sustentabilidade ambiental e o cuidado com a humanidade. Tudo isso só nos reforça a pensar que para haver uma mudança que de fato faça toda a diferença, deve começar a mudar todo o conceito econômico, a fim de prover um alicerce que sustente todo o planeta e suas respectivas necessidades. 

Partindo da necessidade de mudar o modelo econômico, é preciso propor outro conceito de economia. Por exemplo, o pós-crescimento, que pode gerar outros valores, o modelo de pós-crescimento geralmente é encontrado em comunidades, empresas cidadãs, organização de comércio justo, agricultura comunitárias.

O grande desafio de impor o pós-crescimento, como uma alternativa para a desenfreada corrida econômica, é conscientizar e politizar esse conceito. Porém, não quer dizer parar as produções de um dia para o outro, como uma solução de decrescimento. Mas é necessário refazer os valores econômicos, reestruturar e redesenhar pois trata-se de um trabalho gradual, que será a alternativa de reformular todo o sistema econômico. É pelo modelo econômico que se começa a estruturar soluções para o novo molde que queremos e precisamos alcançar.

Para ilustrar como uma empresa atua ativamente com pós-crescimento, podemos citar dois casos como a MCC (Mondragón Corporación Cooperativa) que é um modelo de negócios que trabalha com o desenvolvimento social, mas não deixa de focar também no crescimento econômico. Veja abaixo o vídeo que mostra claramente como funciona a cooperativa Mondragón.

 

Outro exemplo empresarial é a Patagônia, uma empresa que teve iniciativa em reestruturar a sua organização, trazendo como foco principal o modelo de sustentabilidade, educando seus clientes e investidores o conceito de pós crescimento. No vídeo abaixo, temos um documentário que demonstra esse exemplo:

Quando falamos em organizações, não necessariamente devemos focar só em empresas de grande padrão, e devemos levar em conta que as pequenas e médias empresas (PMEs), também podem aderir ao pós crescimento, mesmo que de forma independente.

No entanto, trata-se de um trabalho árduo para que as organizações possam seguir o pós-crescimento, pois não tem um sistema ou teoria com base políticas que estimule o combate ao capitalismo. 

Japão: Cultura Milenar, Inovação Tecnológica e a Lei de Esterilização

Para ilustrar esse debate, apresentamos o caso do Japão. De acordo com os rankings, o Japão é a terceira maior economia do mundo, estando atrás apenas dos Estados Unidos e da China.

Reconhecido por sua cultura milenar e celeiro de corporações que difundem inovações tecnológicas e organizacionais ao redor do globo – quem nunca usou em seu dia a dia a expressões como "qualidade total”, “just in time” frutos do modelo Toyota de organização da produção, que desbancou o modelo Fordista?

Apesar de todas essas inovações que resultaram em liderança econômica, o Japão manteve-se na pré-história em termos das relações humanas. A organização dos jogos olímpicos de Tóquio e, consequentemente, os jogos paralímpicos, abriu uma cortina sobre a história da Lei de Esterilização Japanese, que perdurou de 1948 até 1996.

Em 1940 uma lei chamada "Hegemonia racial”, copiando os métodos nazistas. Posteriormente essa lei foi alterada para “eugênia” em 1948 a 1996. A palavra eugênia significa “bem nascido” e esse projeto de lei vem com o intuito de erradicar as doenças mentais e pessoas com deficiência, a fim de controlar a raça pura japonesa. Essa prática conduzia em esterilizar as pessoas a não terem filhos, eram feitas em pessoas com deficiências e sem seus consentimentos. Em comparação com outros países que também adotaram os métodos eugênicos, o Japão teve sua participação na prática eugênica com duração de meio século. 

Kikuo Kojima, 73 anos, relata que foi submetido a esterilização na adolescência e nunca havia contado isso a ninguém. E somente revelou quando sua esposa estava no leito da morte em 2013. Esse caso ganhou grande repercussão e gerou várias mobilizações para que o governo reconhecesse a prática abusiva e além de pedir perdão e indenizar as vítimas. 

Audiodescrição - Homem japonês, pele clara, cabelos pretos e curtos, olhar em direção ao chão e boca fechada, veste blusa de manga longa preta. Ao seu lado uma mulher japonesa de cabelos castanhos escuros, ombros levemente caídos, blusa de manga longa erguida até o cotovelo e mãos sobre as pernas. Ao fundo uma parede branca com alguns adesivos coloridos e livros na prateleira. 

Assim como a história de Kikuo, podemos ver neste vídeo abaixo pessoas com deficiência que também foram abusadas pelo castramento humano. Alguns preferem não expor sua identidade, e mesmo assim não deixam de divulgar sobre o sistema eugênico. 

 

Atualmente, várias vítimas estão dispostas a relatarem as suas experiências negativas. Veja o exemplo neste vídeo abaixo:

 

Depoimentos

No entanto o Japão, tem ausência com outro compromisso que a ONU oferece que é o IDH - Índice de Desenvolvimento Humano, pois essa organização traz o conceito de ampliação ao direito de liberdade e escolhas, de cada ser humano. Já que o PIB, ODS - Objetivos Desenvolvimento Sustentável, decrescimento, hegemonia do crescimento são considerados pelo fatos da econômica e compromissos globais, o IDH tem o foco principal no desenvolvimento humano, promovendo diretrizes de que o ser humano tem o direito de fazer suas escolhas. Podemos comparar que o IDH foi criado em 1990 e no Japão a lei de eugênia ainda estava em prática até 1995. Isso é contraditório quando estamos falando de um país cuja poder é de terceiro mundo, que já tinha compromissos com a ONU.

 

Por fim, o que devemos considerar? Crescimento econômico a qualquer custo ou o crescimento humano com base nas suas diferenças? 

 

No Japão, temos a imagem de é um país bem desenvolvido em vários aspectos mas que por questões de imaginário social, nos faz pensar que este país é avançado em todos os temas e inclusive de pessoas com deficiência, o que podemos estar totalmente enganados uma vez que atualmente acompanhamos fortes relatos de pessoas com deficiência que não foram consideradas dignas de decidir se querem ou não filhos, foram totalmente privadas desses direitos a liberdade em decidir o que é melhor para elas. 

Podemos concluir que a atual economia não acompanha as necessidades atuais, é que como se o sistema estivesse congelado no tempo e que não tem sincronia com o dever global e humanitário. O que nos faz acompanhar que os países que são considerados pela métricas os mais avançados, não quer dizer que são desenvolvidos no fator humano e ambiental. Talvez se a economia fosse refeita abordando esse olhar com necessidades de empregar o que não são contemplados, os resultados não seriam os mesmo, pois como podemos acompanhar o caso do Japão que é o terceiro maior país do mundo, cuja a tecnologia é milenar, é uma surpresa nos depararmos que as pessoas com deficiência, eram tratadas como incapazes de decidir se queria ou não submeter a esterilização e que o principal objetivo do país era erradicar as doenças degenerativas e pessoas com deficiência em seu país, levando o lema da “higiene racial” ou seja, tentando manter a raça pura e sem quaisquer defeitos, para manter a genética perfeita. 

Autora: Rafaela Adle 

Referência bibliográficas:

  
    1. Banerjee SB, Jermier JM, Peredo AM, Perey R, Reichel A. Theoretical perspectives on organizations and organizing in a post-growth era. Organization. 2021;28(3):337-357. doi:10.1177/1350508420973629

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